24 Junho, 2008...9:22 pm

Adágio tardio à presunção antecipada

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ALEMANHA 3 – 2 PORTUGAL

Pois é, a Alemanha marcha em frente contra canhões turcos – quiçá mais poderosos, ainda que desfalcados – e ocupa um lugar que poucos lhe vaticinavam, quando o adversário que tinha pela frente era a esquadria portuguesa, “favorita” à conquista do Euro 2008…

Golos de Bastian Schweinsteiger, Miroslav Klose e do inevitável Michael Ballack ofereceram ao técnico Joachim Loew (que até estava suspenso e longe do banco alemão) uma saborosa vitória, de bom nível, talvez no pico das suas possibilidades actuais. Pelo menos, alguém deu “o litro” em Basileia.

Nuno Gomes and Hélder Postiga ainda ripostaram pelo lado dos portugueses, mas o resultado de 3-2 é uma falsa margem mínima, pois a selecção portuguesa nunca conseguiu impor qualquer tipo de superioridade e apenas a espaços pareceu querer reclamar o controlo de uma partida que todos esperávamos que ganhasse.

Bom, talvez nem todos… confesso que, após a pálida exibição frente à Suíça, fui um dos que definitivamente desceu à terra e coloquei seriamente em causa a capacidade anímica e física de Portugal perante uma Alemanha que, não sendo a equipa recheada de brilhantes estrelas de tempos idos, afigurava-se como excelentemente organizada e preparada para o embate. Isto, por muito que os alemães tenham entrado previamente no “joguinho do empurra”. A mim, pelo menos, não convenceu.

Acredito que o próprio Sr. Luiz Felipe Scolari tivesse os seus receios à entrada para o estádio. Se os tinha, eles concretizaram-se em pleno. A dianteira, com Cristiano Ronaldo, Deco e restante companhia de talentos atacantes acabou traída por uma linha de defesas quase irreconhecível em termos de eficácia, coroada por uma exibição desastrosa de Ricardo na baliza. Todos contribuíram para o domínio alemão e os seus três “tiros” certeiros.

Schweinsteiger (esse colosso, que pode estar a caminho do AC Milan, se os italianos pagarem ao Bayern a cláusula de rescisão de €21,5 milhões) afirmou posteriormente que a Alemanha foi a melhor equipa em campo, com uma pressão constante sobre Portugal e que todos jogaram em homenagem ao castigado Joachim Loew. Nisso, acredito piamente.

Agora… alguém viu o tributo dos jogadores portugueses a Scolari, em campo, durante a partida ou na conclusão da mesma? Obviamente, não se esperavam faixas de despedida já preparadas, ao jeito da equipa suíça. Isso seria triste, ridículo e vergonhoso. Fica, no entanto, assinalada a… ahem… “falta de expressividade solidária” para com um técnico que muito fez por esta selecção e esta equipa, mas cujo “canto do cisne” ficou irremediavelmente marcado pelo anúncio fora de tempo da sua transferência para o Chelsea. Algo que Scolari, nas entrelinhas, terá admitido, ao considerar-se o último culpado pelo destino de Portugal neste Euro 2008…

“There’s only one team in Basel”, cantaram os adeptos alemães, em inglês.

Francamente, apesar do tom do meu comentário, permitam-me discordar. Estiveram duas equipas e meia em campo. Uma, a da Alemanha, em pleno. Outra, a de arbitragem, também em pleno, para o bem e para o mal, mas pelo menos deixou jogar. A meia equipa restante funcionou do meio campo português para a frente, mesmo que sem os espaços, a pujança física e o brilhantismo dos anteriores jogos. Contudo, recordo o excelente passe de Deco (em grande, neste Europeu) à procura de Ronaldo, que atirou para defesa de Lehmann, mas a bola, sobrando para Nuno Gomes, acabou no fundo das redes. Um golo importante, no final da primeira parte, até porque tornou o Nuno no quarto jogador a marcar em três campeonatos europeus diferentes, igualando Thierry Henry, Jurgen Klinsmann e Vladimir Smicer, todos com seis golos. Só Alan Shearer (sete) e Michel Platini (nove) marcaram mais. Nuno igualou também Luis Figo no recorde de presenças em partidas de europeus (14). Quem diria, não é, Nuno?

Recordo ainda a pressão do meio campo no início da segunda parte, que valeu a Friedrich e Philipp Lahm merecidos cartões amarelos, por faltas cometidas sobre Ronaldo e Deco, respectivamente.

Pressão essa que os alemães acusaram e que os portugueses quase transformaram em golo da igualdade, aos 11 minutos, não fosse o cabeceamento desinspirado de Pepe.

É certo que foi a Alemanha a ampliar a vantagem, ao passar da hora de jogo, no seguimento de um livre concedido por Pepe. Também é certo que, mais uma vez, a defesa não foi capaz de lidar com Schweinsteiger. Contudo, não deixa de ser verdade que a jogada do golo é, no mínimo controversa. Ballack, por grande jogador que seja, ainda precisou de um belo de um empurrão a Paulo Ferreira (colega de equipa no Chelsea), para ganhar o espaço necessário de modo a bater Ricardo, mesmo que o guarda-redes se tenha precipitado na saída à jogada.

Recordo ainda o “golo de honra” português, a três minutos do final, quando Nani cruzou para o bom cabeceamento de Hélder Postiga. Um presente para o ponta-de-lança que vestirá de verde e branco na próxima época e a quem aproveito para desejar êxito nessa nova empreitada.

Mesmo assim, o que fica para a memória é o afastamento amargo da Selecção portuguesa, que não atinge as meias-finais de um Campeonato Europeu, pela primeira vez desde 1996.

Pelo contrário, a Alemanha alcança as meias-finais de um europeu precisamente desde 1996, ano em que os alemães levantaram o troféu pela última vez… poderá o passado repetir-se?

Certo é que, com esta vitória, a Alemanha atinge um total de 52 golos em fases finais de europeus. Só a Holanda marcou mais (54), mas a Holanda parece ter tomado do mesmo chá que Portugal e já não está em competição, pelo que é mais um recorde em aberto…

São estes os frios números que contam e a moral da história é que, tendo já alcançado um patamar  de respeito no futebol mundial, pois isso ninguém nos tira, não podemos viver da simples presunção de favoritismos e vitórias antecipadas. Há que jogar para ganhar sempre, com ambição , dedicação e força a  200%, mas  também com a dose certa de humildade. Por parte de jogadores, equipa técnica e, por que não dizê-lo, dos próprios adeptos de Portugal em todo o mundo. Ah, já agora, se não for pedir muito… com o mínimo de “novelas” possível.

Estatísticas

Portugal Alemanha
2 Golos marcados 3
3 Cartões amarelos 2
0 Cartões vermelhos 0
6 Remates à baliza 5
12 Rem. fora 5
11 Faltas cometidas 15
8 Cantos 3
2 Foras-de-jogo 2
33′ 28” P. bola (tempo) 25′ 8”
57% P. bola (%) 43%

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